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De calça curta e chinelo

Vestido assim, Antônio Francisco carregou a cultura nordestina para regiões e gerações

Um sonhador 

É essa a primeira frase que o poeta Antônio Francisco diz para essa reportagem. Descreve a si próprio com palavras diretas, simples e completas de significados sobre sua jornada. O cordelista nordestino de 72 anos se formou em História na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), absorvendo ainda a responsabilidade de ser pai de três filhos, a entrada tardia na faculdade e um casamento. Francisco faz parte da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, ocupando a cadeira de número 15, cujo patrono é o poeta cearense Patativa do Assaré, um grande ídolo do entrevistado.

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Entre suas obras mais famosas, Dez cordéis num Cordel só pode ser citada como o destaque de sua carreira como cordelista. O autor retrata inúmeras situações e fragmentos naturais da vida cotidiana do povo nordestino, sempre com teor fantasioso durante o enredo, incluindo um fundo de  crítica social e trazendo uma reflexão sobre a maneira que o mundo é e como ele poderia ser. Sua poesia está frequentemente sendo estudada em universidades e escolas públicas e privadas do Rio Grande do Norte. Além da valorização local de sua arte, instituições de ensino de outros estados, como São Paulo, Pernambuco e Ceará, também incluíram os cordéis de Antônio Francisco na sua metodologia de estudo.

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Filho de Francisco Petronilo de Melo, um ex-jogador de futebol das décadas de 1940 e 50, e Pedra Teixeira de Melo, o autor nasceu em 21 de outubro de 1949 e possui mais de 10 mil seguidores em suas redes sociais, que é administrada por suas filhas e possibilita uma visibilidade de sua arte mais ampla à população digital. Recentemente, conseguiu sua própria exposição no Partage Shopping titulada como Raízes de Mossoró: Poeta Antônio Francisco, tendo data de inauguração em 24 de julho do ano passado, na Galeria Partage.

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Acompanhe agora como foi a reportagem com o poeta e a reflexão deixada por ele sobre a cultura nordestina, com um humor leve, ambientado em um lugar simples e aconchegante de sua casa, que consegue trazer reflexões de maneira profunda e graciosa.

1. Quem é Antônio Francisco?

Muitas pessoas já falaram, escreveram, filmaram sobre quem é você. Mas se o senhor fosse se apresentar para um estrangeiro, que não conhece nada sobre literatura de cordel ou da sua história aqui, como você definiria Antônio Francisco?

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Um sonhador. Eu sou um sonhador. Eu sonho com um mundo melhor. Tudo meu é um sonho. Pra mim a pessoa quando perde o sonho, perdeu a idade, perdeu tudo. Eu escrevo o que eu penso e como eu quero que o mundo seja. Eu preciso ser um sonhador porque eu não me limito só a dois partidos políticos do Brasil, eu me limito ao mundo. Eu me defino como um sonhador. Um homem que ainda pensa em dormir com a porta aberta.

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O senhor possui grande importância e prestígio como cordelista, tanto regionalmente como nacionalmente, mas pode ser que algumas pessoas não conheçam o seu trabalho. Como seria definida a trajetória de Antônio Francisco para alguém que não teve contato com seu trabalho?

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Se uma pessoa não ouviu falar de mim, a pessoa está muito distante da cultura, das letras, porque eu faço parte da cultura, das letras. E sou um cidadão comum como outro qualquer, mas eu tenho um bocado de requisitos que fazem as pessoas me reconhecerem. Eu moro em uma cidade como Mossoró mas teve uma professora de letras que perguntou a um aluno se ele me conhecia e ele disse que não. É incrível. Eu tive meu livro no vestibular, eu viajei para Fátima Bernardes, fui para o Jornal Nacional.

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Confira trecho da entrevista com Antônio Francisco pelo canal do Youtube  HiperLAB UERN.
 

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EXPOSIÇÃO NO PARTAGE SHOPPING

A exposição Raízes de Mossoró: Poeta Antônio Francisco foi inaugurada no dia 24 de julho do ano passado, na Galeria Partage, e manteve suas portas abertas até o dia 8 de agosto. O espaço dedicado a homenagear o escritor mossoroense contou com cerca de 50 itens do poeta, entre cordéis, livros, quadros de pintura própria, fotografias, troféus e medalhas. Visitantes de todas as idades exploraram o lugar, conhecendo mais sobre a história e a poesia de um grande nome da cidade.

2. Dez cordéis e onde mora a fome

Qual de seus livros poderia ser utilizado como um retrato seu e de suas obras? Por exemplo, alguém quer conhecer as suas obras e você só pode recomendar uma, qual seria?
 

Dez cordéis em um cordel só. O primeiro livro meu já diz tudo. (Esse livro tem cordéis como) Do outro lado do véu, Arca de noé. É tanto, que deles pra cá eu vivo tentando fazer outro.

 

No poema A casa que a fome mora, você trata a fome como um personagem, e coloca-a como não um tipo de anti-herói, o que passa uma imagem diferente da fome, que geralmente é tratada como uma estatística no campo político. Como surgiu a ideia de descrevê-la como um personagem?

 

Saindo desse campo político e mostrar às pessoas o que é a fome e porquê exatamente a fome é o ser humano. Eu quero saber a casa onde a fome mora, de onde ela vem. Eu não vi a fome, então eu vou procurar num outro lado. Eu pergunto e ela que me responde. Tudo eu faço. Até pedra falar. Porque pra mim o escritor é aquele que consegue fazer as coisas.

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Confira trecho da entrevista com Antônio Francisco pelo canal do Youtube  HiperLAB UERN.
 

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3. "Lá vem o Gibran"

Os seus poemas geralmente envolvem o desenvolvimento de fábulas com um certo teor de crítica social. Esse modo de fazer cordel consegue envolver tantos adultos como jovens e crianças? Seria uma maneira de diversificar o público? 

 

Eu não tive essa pretensão. Mas eu acho que devido a tanto filme e lendo essas coisas, ficaram em mim. Pra eu dizer uma coisa eu tenho que usar a fábula. Os irmãos Grimm fizeram isso. Por quê eu não posso fazer?

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Durante a entrevista, o poeta expressa com frequência sua afeição sobre filmes. Ao ser questionado se teria alguma indicação para alguém que está iniciando na arte de escrever cordel, ele responde sobre o que seria de fato sua orientação para escritores iniciantes:

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“O cara quer escrever,  ele leia. Inclusive, todo mundo. Tem uma capa em uma revista que diz assim: o homem que lê vale mais. Eu acredito demais. Eu era um soldador, mas eu era um soldador que lia. Eu era um pintor que lia. Eu não era um sapateiro. Eu era um sapateiro que lia. Eu sou amigo dos livros.”
 

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 4. Sapateiro, soldado e universitário.

Em uma entrevista, o senhor contou que, antes da faculdade, já tinha sido sapateiro, carpinteiro, pedreiro, soldador, plaqueiro e serviu ao exército. Essas profissões influenciaram a sua escrita de algum modo? 

 

Não foi simplesmente servir ao exército. Eu morei dentro de um quartel. A pessoa serve o exército e volta de noite pra casa, eu ficava lá, sujeito a trabalhar. Eu morei quase um ano no quartel. Depois de me casar, trabalhei como pintor, soldador, sapateiro. Nunca gostei de trabalhar com máquinas, preferia fazer os sapatos à mão. Passei quatro anos na faculdade. Eu sempre percebi a mim mesmo. Eu nunca trabalhei em nada que eu não gostasse, até que disse outro dia, eu enganei a vida.

 

O senhor iniciou na faculdade, pelos parâmetros estatísticos e até por suas próprias palavras em entrevistas anteriores, tardiamente. Já era casado e tinha três filhos. Quais as dificuldades que o senhor enfrentou enquanto aluno universitário?

 

Eu achava bom demais. Até hoje sou amigo de alguns professores, eles já me visitaram. Eu gostava de todo professor e eu tinha essa vantagem que eu gostava de andar de bicicleta. Eu ia à FURRN (Fundação Universidade Regional do Rio Grande do Norte, antigo nome da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte - UERN) e voltava de bicicleta. Tudo meu foi um pouco mais velho, já que eu não tinha tempo, trabalhava direto. Desde os 17 anos eu já era sapateiro, então não tinha tempo para estudar. 

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Confira trecho da entrevista com Antônio Francisco pelo canal do Youtube  HiperLAB UERN.

INDÚSTRIA

5. A poesia não envelhece.

Com o tempo, muitos lugares na cidade mudaram ou desapareceram. Cinemas como o Pax, Caiçara, Cid, Jandaia, todos acabaram. Prédios históricos passaram por reformas, mudaram os seus propósitos. E a poesia de Antônio Francisco, também foi afetada pelo tempo?

 

Minha poesia é para sempre, tanto que eu conversando em um canto ( me perguntam) você não tem nada de novo não? Eu não deixo minha poesia envelhecer. É minha.

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 6. Enchendo a academia (e a universidade) de povo.

O senhor recebeu o convite para assumir a décima quinta cadeira na Academia Brasileira de Literatura de Cordel, como foi o impacto de receber essa nomeação, sendo um homem negro nordestino, levando em consieração a desvalorização da arte e cultura nordestina? 

 

Eu fiquei com medo. Apreensivo. Eu li Patativa e conheci ele. Ser comparado na cadeira dele pra mim foi um pulo muito grande. Estava nem preparado para isso. O discurso que eu fiz na Academia chorou gente. O discurso o nome é De calça curta e chinelo. Já dizendo isso tudo. Porque nordestino é nordestino.

 

Confira trecho da entrevista com Antônio Francisco pelo canal do Youtube  HiperLAB UERN.

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Título 2

7.Sou do baião, do livro de papel

Verifiquei que o senhor está ativo nas redes sociais e com frequência compartilha sobre o seu trabalho nelas. Diante da realidade tecnológica dos dias atuais, qual o impacto no reconhecimento de seu trabalho, após a imersão nas redes sociais?

 

As redes sociais têm feito muita coisa por mim, mas (se referindo a seu envolvimento com as mídias) por causa das minhas meninas. Eu só me preocupo com uma coisa: é em escrever. É achar aquilo que eu fiz na minha cabeça

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NOVOS PROJETOS

    Para a entrevista, o autor revelou uma síntese do que seu novo trabalho irá tratar. A obra será um compilado de contos e alguns já estão concluídos, mas ainda sem previsão para lançamento.

    Estão incluídas entre as histórias que escreveu recentemente “Um carro chamado Brasil” - seguindo o pensamento de “que é muito mecânico para a gente ter um carro só”. Continuando a falar sobre suas novas histórias, ele segue: “Eu fiz ‘Terra Mãe’, que seria a Terra fazendo comer para nós e fiz ‘Em busca da paz'.

Ao ser questionado, de modo informal, sobre sua relação com as redes sociais, ressaltando a divisão entre leitores digitais e do livro impresso, Antônio expressa sua preferência na versão física do objeto em específico como instrumento de lazer:

Eu gosto de pegar no livro, de ver o livro, abrir o livro, folhear o livro, cheirar.

Sobre o seu método de escrita, o autor confessa não ter uma metodologia organizada ou sistêmica, sua arte partiria, assim, da emoção:

“Nem eu sei como vou terminar. Eu digo é muito, você começa um poema aqui, visando ali, mas depois você dobra as curvas. Três, quatro parágrafos, o poema já não é seu. Já tem dono. Já tem vida própria.”

O POETA DO NORDESTE.

     Diante do apresentado nesta modéstia reportagem sobre um dos maiores escritores nordestinos do século XXI, que mantém a cultura do semiárido eletrizante; Antonio Francisco destaca-se como um marco historiográfico para o Rio Grande do Norte. Por assim dizer, o poeta conquistou seu espaço como escritor apesar das dificuldades da vida e da desvalorização de uma região precária em termos sociopolíticos, enraizando sua arte ao cotidiano de seu povo através do talento.

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Confira trecho da entrevista com Antônio Francisco pelo canal do Youtube  HiperLAB UERN.

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